![]() |
AFP |
Estadão
Conteúdo
Em uma das três entrevistas que deram origem ao livro
"A Verdade Vencerá - o povo sabe por que me condenam", o jornalista
Juca Kfouri perguntou ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a
possibilidade de se exilar em uma embaixada amiga em vez de aceitar
passivamente a prisão. Lula admite estar pronto para enfrentar a prisão e nega
a possibilidade de fuga: "Olha, conheço companheiros que ficaram 15 anos
exilados e não tiveram voz aqui dentro, no Brasil".
No livro, que é assinado pelo próprio Lula e será lançado
nesta sexta-feira, 16, em São Paulo, o ex-presidente, condenado a 12 anos e 1
mês de prisão em regime fechado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no
caso do triplex do Guarujá (SO), admite pela primeira vez estar pronto para
enfrentar a cadeia.
Além disso, Lula adianta o discurso político que será usado
para seus seguidores, o do preso político, injustiçado, que um dia será
absolvido pela história. "O preço que vai ser pago historicamente é a
mentira contada agora", diz Lula. "Eles querem prender? Prendam,
paguem o preço", afirma.
Kfouri volta ao assunto com mais ênfase. "O senhor
está cogitando a hipótese de ser preso?" Lula afirma: "Estou. O que
não estou é preparado para a resistência armada, nem tenho mais idade. Como sou
um democrata, nem aprender a atirar eu aprendi".
Na sequência a editora Ivana Jinkings indaga: "Como é
que se prepara o espírito para isso?" "Eu não preparo o
espírito", diz Lula. "Eu sou um homem de espírito leve. Tudo isso faz
parte da história (...) Há duas instâncias superiores a que a gente pode
recorrer e vamos recorrer. Eles vão tomar a decisão e estou pronto para ser
preso. É uma decisão deles."
O livro da editora Boitempo é fruto de três entrevistas
feitas por Kfouri, Ivana, Gilberto Maringoni e Maria Inês Nassif em fevereiro
deste ano, depois, portanto, de o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região
(TRF-4) ter confirmado a condenação do petista. Além disso, traz textos de Luis
Fernando Veríssimo, Luiz Felipe de Alencastro, Eric Nepomuceno e outros.
Dilma
Lula diz que faltou empenho político da presidente cassada
Dilma Rousseff e sua equipe para evitar o impeachment. "Em todas as
conversas que eu mantinha, as pessoas se queixavam 100% dele (Aloizio
Mercadante) e 101% da Dilma. Cheguei a ponto de dizer para a Dilma: 'Olha, você
vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros
defenderam'."
Além disso, admite que o presidente Michel Temer, chamado
por ele de "traidor", soube resistir melhor do que a petista, conta histórias
de eleições passadas - como o dia em que Leonel Brizola, já no segundo turno da
disputa de 1989, sugeriu que ambos renunciassem em favor do tucano Mario Covas
-, e evita fazer a defesa pública do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
Lula revela ainda que João Santana tentou, primeiro, fazer
de Dilma uma "candidata-tampão" e, depois, afastá-la dele. Com bom
humor, mostra aspectos de sua vida pessoal, como a relação com a bebida.
"Duvido que um jornalista tenha me visto bêbado. A última vez que bebi pra
valer foi para ver Brasil e Holanda na Copa de 1974. A gente ficou guardando a
bebida pra depois da vitória e tomamos de 2 a 0. Ficamos xingando os jogadores
e bebemos."
Fidel
Inspiração de Luiz Inácio Lula da Silva, o discurso "A
História me Absolverá" foi escrito como a defesa do advogado e líder da
revolução cubana, Fidel Castro, diante do tribunal que o julgava em razão do
ataque fracassado ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba.
Era 1953. Fidel tentara a ação armada para derrubar o
regime de Fulgêncio Batista. No discurso, ele se transformava em acusador do
regime. "Quanto a mim, sei que a prisão será dura, como tem sido para
todos - prenhe de ameaças, de vil e covarde rancor. Mas não a temo."
E terminava com a síntese de sua estratégia:
"Condenai-me, não importa. A história me absolverá." Recebeu 15 anos
de prisão. Anistiado em 1955, ele derrubaria Batista três anos depois. As informações são do jornal O Estado de S.
Paulo.